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| Entre a boa intenção e a prática |
Elaboração e implementação dos códigos de ética devem contar com o envolvimento dos diferentes públicos de interesse
(Redação - Revista Ideia Socioambiental – São Paulo)
A amplitude dos temas cobertos, o envolvimento das diferentes partes interessadas tanto na fase de elaboração quanto de divulgação e a educação dos públicos com os quais a empresa se relaciona são algumas das variáveis comuns normalmente identificadas nos melhores códigos de ética corporativos. Esta é uma das conclusões a que chegou a reportagem de Idéia Socioambiental após leitura e análise de algumas experiências consideradas como benchmarking no tema.
Outra conclusão importante, extraída de entrevistas com gestores de códigos de ética nas corporações, foi que um documento bem redigido não é sinônimo de rigor ético. Nem garantia de que a empresa instalou a ética em sua cultura organizacional. Para que não se transformem em uma simples carta de boas intenções, os princípios do código de conduta devem ser incorporados por todos os membros da companhia orientando suas relações com os diferentes públicos de interesse.
Segundo o Guia Metodológico para Elaboração de Códigos de Ética da Federação das Indústria de Minas Gerais (Fiemg), o objetivo de um instrumento como esse é comunicar, interna e externamente, o propósito compartilhado dos integrantes da organização de manter um determinado nível de comportamento ético, em troca da credibilidade que recebem dos públicos de interesse. Por atuar na esfera do que se denomina moral – uma questão individual – a elaboração do código de conduta deve não só contemplar diferentes opiniões, mas garantir a efetiva incorporação do que pensa e valoriza cada indivíduo envolvido na cadeia produtiva.
A avaliação das expectativas dos públicos de interesse foi o caminho escolhido pela Sabesp para iniciar a elaboração de seu código de conduta. “Fizemos um trabalho para ouvir a nossa empresa porque queríamos que o código fosse um grande balizador de ações, um orientador para o que pensamos, fazemos e acreditamos”, avalia Maria Aparecida Margarido, gestora de responsabilidade social e qualidade de vida da Sabesp.
De acordo com o guia da Fiemg, a imagem e a reputação das empresas está muito ligada ao nível de confiança pública que ela desperta Diante da crescente pressão dos consumidores em relação a uma postura mais ética, corporações que não cultivam valores socioambientais correm o risco de perder mercado. Além disso, exigências de natureza ética cada vez mais específicas nos índices de bolsas de valores, importantes para os investidores, têm levado as companhias a cuidar, com mais atenção, de aspectos como transparência, governança corporativa e responsabilidade socioambiental.
“A partir da necessidade de responder questionários como o Dow Jones Sustainability foi necessário mostrar nossa postura em relação à ética com evidências. Não era mais possível apenas dizer que tínhamos um regulamento. Por isso criamos um questionário de auto-avaliação para medir o conhecimento dos funcionários sobre o código”, disse Roberto Sobral Hollander, diretor de gestão de riscos e compliance do Bradesco. Auditar o quanto os colaboradores conhecem e praticam o código de ética é uma ação cada dia mais comum em empresas de todo mundo. E sua realização tem sido recomendada, por exemplo, nas que adotam a Lei Sarbanes-Oxley, criada em 2002, para reduzir o risco de fraudes entre as companhias que negociam na Bolsa de Valores de Nova Yorque.
Para alcançar o reconhecimento baseado na ética e na confiança, os valores de um código devem permear a cultura organizacional, orientando todo o processo de tomada de decisão, independentemente do nível hierárquico. Na CPFL Energia, existe desde 2000 o Programa de Reflexão sobre Ética, Disseminação e Inculturação do Código de Ética e Conduta Empresarial. “O programa busca o alinhamento de uma cultura ética que seja capaz de orientar e pautar as decisões dos colaboradores, assim como de toda a rede de relacionamento com os públicos estratégicos”, afirma Roseli Cordeiro, coordenadora da área de sustentabilidade e responsabilidade corporativa da CPFL.
Segundo o Guia Formulação e Implantação de Código de Ética em Empresas – Reflexões e Sugestões, do Instituto Ethos, os valores presentes na cultura empresarial reforçam atitudes que se pretende estimular ou erradicar. Para tanto, ressalta o guia, é recomendável que um CE exprima sempre as ideias de forma clara e simples.
Antes mesmo de resultar no documento final, o próprio processo de elaboração do código de ética de uma empresa já cria um grande movimento interno, integrando os públicos de interesse em uma dinâmica que exige reflexão e cooperação. “Na prática, ele serve para que, ao tomar uma decisão no seu dia-a-dia, cada colaborador reflita se está ou não sendo ético. Isso vale para um eletricista, um comprador ou integrante da diretoria. O objetivo é fazer com que a ética seja gerida como um processo interno como qualquer outro processo existente na empresa”, avalia Roseli, da CPFL.
Ideias em prática
Atualmente, a maioria das corporações está ciente de que, além de oferecer produtos e serviços de qualidade, contribuir para o desenvolvimento sustentável é fundamental para garantir seu espaço no mercado, hoje e no futuro. Em muitos casos, no entanto, persiste ainda uma lacuna entre o que a companhia se propõe a fazer e o que oferece de fato ao consumidor e à sociedade. Esse tipo de postura pressupõe riscos na medida em que os consumidores se mostram cada vez mais conscientes e dispostos a boicotar empresas com um comportamento destoante do conceito de sustentabilidade.
Nos últimos anos, a ética passou a ser um fator fundamental de competitividade - e é só pela prática cotidiana que ela pode ser incorporada nas relações com funcionários, parceiros de negócios e consumidores. Há um consenso entre especialistas de que nenhum código de ética se torna um forte balizador de condutas se os pontos de vista dos públicos de interesse não são devidamente ouvidos e avaliados. No caso da Suzano, esse diálogo foi fundamental para a concepção de um código eficiente. “Na elaboração do nosso código analisamos todos os negócios, as partes interessadas e a relação que temos com cada uma para que todas as formas de contato fossem abordadas no documento”, destaca Carlos Alberto Griner, diretor executivo de RH da Suzano Papel e Celulose.
Segundo o guia do Ethos, o código de ética deve estabelecer condutas de responsabilidade social também em relação à cadeia produtiva. No Bradesco –reforçou Hollander -- em todo contrato com prestadores de serviços existe uma cláusula específica para o CE. “Se a empresa tem um código bem divulgado, incluímos outro tipo de cláusula, respeitando as diretrizes dela. Se não tem, ela se compromete a respeitar os nossos princípios e fazer com que os seus funcionários e prepostos também o façam”, avalia o diretor de gestão de riscos do Bradesco.
Ainda de acordo com o guia do Ethos, sem um processo de autoconhecimento e de percepção das expectativas de todos os envolvidos, corre-se o risco de elaborar uma ferramenta frágil ou inoperante. Para definir seu padrão ético, sua forma de ser e de atuar no mercado, cada empresa precisa saber o que deseja fazer e o que espera, além de investir na disseminação de seus compromissos.
No caso da Petrobras, por exemplo, funcionários são treinados para levar o CE a todos os setores da empresa. “A capacitação de multiplicadores de Código de Ética, um treinamento para aprofundar o conhecimento do seu conteúdo, oferece subsídios para que eles atuem na disseminação do CE”, ressalta Ana Paula Grether, coordenadora de balanço social da Petrobras.
Porém, a implementação de um código de ética apresenta tanto oportunidades quanto riscos que devem ser geridos. O estímulo ao debate no ambiente de trabalho sobre os valores que se deseja seguir possibilita um conhecimento amplo a respeito das expectativas de todos os públicos de interesse da empresa. Mas, feita de forma equivocada, a implantação de um código de ética pode transformá-lo mais em um instrumento de controle e punição do que em uma ferramenta para o desenvolvimento coletivo da empresa.